COMO?
Arrumar as malas e partir...
Ensacar os perfumes e suas essências conjugais, envelopar as cartas e fragmentos do dia-a-dia, dobrar as roupas e memórias do mundo construído a dois, deixar pra trás o outro com quem a vida dividiu...
Rumar ao mar que não tem mais a companhia de antes, num barco à deriva sem motor e sem ter com quem dividir o leme... içar as velas... fazer o de comer... pestanejar de bombordo a estibordo sem bússola...
VOCÊ VAI EMBORA?
As paredes amarelas recém pintadas não cobrem as histórias vividas...
A cama já não desforra mais... um já não espera mais pelo outro pra comer... na TV as imagens se tornam rarefeitas, mais parece uma tela azul... a freqüência é fora do ar e o guarda-roupa, não há mais roupas, os cabides se batem solitários e as gavetas rangem sem meias ou cuecas
...
As janelas fechadas se cobrem de poeira... no porta-retrato a não-fotografia desse momento insalubre e in-comum... a porta abre e fecha sem trinco na fechadura e sem quem a segure do outro lado provocando uma brincadeira...
A chuva traz frio e o sol não esquenta... confusão no termômetro vital... e o telefone insiste em tocar...
VOCÊ NÃO VEM?
As vezes no calor do momento a gente se precipita e se atira no desdém da vida... assim como se embolar na perna-de-pau, cair, levantar e só perceber que machucou os punhos depois que o sangue esfria, a dor lateja e o músculo incha...
O rosto no espelho já não é mais o mesmo e as sensações térmicas se misturam entre a chuva que de uma hora pra outra

cai afogando o sol cor de fogo bom de mar... os olhos se escondem, a boca resseca e as sobrancelhas não arqueiam mais com a mudança de humor...
O riso não vem... a palavra enguiça... a fome se esvai... e o tempo voa... o ontem é raiz do amanhã e o presente já não presenteia mais...
Os pés congelados e as mãos ferventes num corpo cheio de tempestades solares... os dedos digitam...
PORQUE?
A cabeça pensa corpo paralisado inconseqüente-mente...
Os cabelos embaralham a memória e os desejos estouram como bolhas de sabão no deserto de um homem só...
Interjeições não fazem interlocuções com o outro e não expressam... metáforas se esvaziam e eufemismos não se configuram mais...
A lâmpada estoura uma luz que cega e não indica caminhos... os ouvidos atentos não ouvem o canto dos ventos que lá fora cortam as árvores e amedrontam os desabrigados...
Os copos ainda exibem a marca dos lábios outrora sedentos por água, agora sem cor, não-transparentes... o lençol duro afugenta os sonhos... o celular vibra...
PORQUE VOCÊ QUER QUE EU TERMINE?
Onde é a porta de emergência? Onde começa e onde termina? Onde estou?
... Salvador - BA, segunda-feira, 08 de junho de 2009...
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